Certamente são muitas, e não superficiais, as obrigações e as tarefas de um pai de família no cuidado e regimento familiar: ele na sua casa é como um pequeno rei, a quem compete conservar a paz e a tranquilidade doméstica, manter a justiça, prover o alimento e as outras coisas necessárias para o sustento dos seus, mas tudo isso de vários modos e perspectivas, segundo a variedade de pessoas.
Porém, diferente deve ser o cuidado e a autoridade do pai de família em relação a própria esposa, diverso em relação aos filhos, e ainda mais diferente em relação a empregados ou prestadores de serviço. Ora, como começamos a dizer, muitos e não leves são as obrigações no governo da casa, mas sem dúvida, uma das maiores e mais graves são aquelas relacionadas aos filhos, isto é, educá-los e cuidar-lhes bem e de modo cristão no santo temor de Deus.
Alimentá-los somente no que se refere ao corpo e à vida natural, é comum a nós e aos animais. Também a educação moral, de acordo só com a luz da razão, é comum a nós e aos que ainda vivem nas trevas da infidelidade, e que não conhecem a verdadeira via da salvação.
Ao cristão e fiel compete alimentar os filhos segundo nos mostra a lei de Cristo, para que, vivendo e morrendo bem e santamente, sejam na terra instrumentos de Deus para benefício e auxílio da sociedade humana. Que no fim sejam herdeiros do reino de Deus no céu, cuja graça e auxílio tenhamos para bem viver e morrer, para ressurgir eternamente na sua glória e no gozo eterno do próprio Deus.
Portanto, não cria tal pessoa de errar pouco, sendo negligente no ofício que falamos, não procurando com dedicação de cuidar bem dos seus filhos. Antes bem, cometeria um gravíssimo pecado, e ofenderia de muitas formas a si mesmo, os próprios filhos, a casa, seus descendentes, o gênero humano, os santos do Céu, e finalmente o Sumo Deus.
Para compreender isso melhor, é necessário considerar que o pai que descuide de bem formar o filho ofende primeiramente a si mesmo. Dado que o filho é de certo modo parte e obra sua, ao permanecer por culpa do pai imperfeita e defeituosa, devolve para ele o defeito e a imperfeição. É como um corpo, cujos membros são fortes, frágeis ou inúteis.
Em segundo lugar esses pais ofendem os próprios filhos, pois como instrumentos de Deus, ao ter-lhes dado o ser e o viver, não lhes dá o bem-estar mais importante. Ofende também sua casa e sua linhagem, já que de filhos maus provavelmente nascerão descendentes ainda piores. Assim, a antiga nobreza, que é virtude dos mais velhos, pouco a pouco decai, fechando o caminho para conquistá-la com o verdadeiro meio da virtude, de modo que famílias inteiras terminam na ruína.
Ofende também à pátria, à qual estava obrigado a dar bons e úteis cidadãos, que soubessem e quisessem ajudá-la em cada necessidade. Porém, ou lhe deixa uma geração inútil e desastrosa, ou o que é pior, deixa homens criminosos e perniciosos, que são como tantas fagulhas para acender milhares de fogos de discórdia e dissensão, que se comprazem somente em perturbar e destruir, com maus exemplos e péssimas ações, a boa ordem e a tranquilidade pública.
Mas não para somente aqui o fruto mau da semente da negligência paterna. Antes, avançando, é possível que os maus filhos ofendam toda a raça humana e toda a comunhão entre os homens, da qual cada homem é uma partícula. Sabe-se que a indisposição e a má qualidade de uma parte, ainda que pequena, não deixa de ser nociva para o todo. Então, enquanto a si mesmo, este pai destrói a sociedade humana e reduz o mundo a uma selva de animais, pois como disse um sábio, o homem injusto é pior que qualquer fera.
Passando da terra para o céu, que ofensa não comete aquele pai que não alimentou bem e santamente os seus filhos, contra os santos e anjos do paraíso, os quais, por sua culpa, são privados de uma grandíssima alegria que receberiam com a glorificação daquelas almas, além de sua companhia no céu, a qual tanto desejam?
Quem dirá o suficiente sobre a injúria gravíssima e inestimável que se faz contra Deus, ao qual estamos mais obrigados que diante de todas as criaturas juntas? Ai daquele pai que tenha guardado mal um depósito tão precioso dado por Deus, que é a alma do filhinho, recomendada aos seus cuidados sob perigo de eterna perdição: Depósito que Deus tanto aprecia, pois ao ter-se tornado homem mortal para redimi-lo das mãos do demônio (que pelo pecado do homem o tinha usurpado), julgou por bem pagar o preço do seu Preciosíssimo Sangue, derramado com infinita caridade e com amaríssimas dores e com sua morte estendida sobre o lenho da Cruz. a