Verdadeiramente grande é a misericórdia de Deus, o qual não obrigou seus servos como dever de necessidade escolher alguns sublimes estados, mas compartilhando da enfermidade e fraqueza de muitos, deixou livre a escolha a cada um para se juntar àquele estilo de vida que mais lhe agrade. Jesus Cristo, nosso redentor e mestre, não disse a cada um sob obrigação de lei e de preceito, mas por modo de conselho evangélico e de perfeição: “Vá e vende tudo aquilo que tens, dá aos pobres e segue-me”.
O apóstolo São Paulo, meditando sobre o estado virginal, afirma não haver mandamento do Senhor, mas como legado e embaixador seu aconselha, persuade e deseja que todos sejam iguais a ele, afastados dos cuidados e das solicitudes do século, e não sujeitos às tribulações da carne. Onde não ordenou a ninguém: não tomes mulher, não case a tua filha; mas somente disse, exortando e convidando ao mais alto e perfeito estado: quem casa a sua filha faz bem, e quem não a casa faz melhor; porém, se tal é a vontade da moça ou do moço, de não querer as núpcias terrenas, mas sim as celestes.
Muitas graças devem ser dadas ao bondosíssimo Deus, pai das misericórdias, que não fechou para ninguém, nem fez difícil o caminho da eterna salvação, mas de muitos modos o abriu e aplainou, de forma que não somente o pobre de pobreza voluntária, o religioso, o clérigo, o virgem e o continente, e aqueles que pelo Reino dos Céus se privaram a si mesmos da procriação dos filhos; mas também o rico, o leigo, o secular, e finalmente o pai de família, retendo suas riquezas, desfrutando dos seus bens, da vida conjugal e dos filhos, poderá com a ajuda da graça divina ter lugar e parte no reino de Deus e na sua eterna bem-aventurança.